quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Relato de um pastor sobre maconha

Palavras sábias do psicanalista clínico, escritor e pregador do Evangelho da Graça de Jesus, Caio D' Araújo Filho em uma resposta por e-mail para um ex-dependente químico que o indagou sobre o consumo da erva. O texto é meio grande mas vale muito a pena ler. Mesmo.

Meu amado irmão: muita paz e amor sobre a sua vida! Deus não nos fez para nada disso. Nem para a maconha, nem para as demais coisas que hoje se tornaram parte degradante de nossas vidas..incluindo as cidades, o sistema econômico, as desigualdades sociais, a religião, as armas, os alteradores químicos de consciência, etc...

A questão é que este mundo agora não é mais o Jardim do Éden. Agora existem cardos e espinhos por toda parte. A sabedoria de Deus, hoje, se manifesta como um saber que lida com as relatividades dessa existência.

Nossas escolhas, a maioria das vezes, não acontecem entre o bom e o ótimo, mas sim entre o horrível e o pavoroso. Usei maconha durante quase sete anos, dos doze aos dezenove. E usava em abundancia. Eram cerca de 15 “tarugos” de maconha por dia...tão grandes e grossos eram que nem de “baseado”, ou “fino” se os chamava, mas de tarugos...pareciam charutos menores um pouco.




Conheci na adolescência todos os sintomas dos quais você falou...especialmente a perda da memória imediata, e a lezeira, a lombreira, e o bode improdutivo. Sei os males que o uso sistemático de maconha pode causar a qualquer um, especialmente aos mais jovens, e aos que a usam em horário no qual precisam estar alertas e produtivos.

Outro dia um rapaz cristão me falou que tinha parado de fumar “um bagulhinho” porque na atividade dele—mexe com números—, ele não podia se dar ao luxo de ficar meio lerdo. Então, eu vi que ele estava meio barrigudinho. Perguntei: E essa barriguinha aí? De onde está vindo? “Da cerveja. Estou tomando muita cerveja!”—respondeu.
Eu disse a ele que se havia parado com a maconha, deveria, então, parar também com o excesso de cerveja. Afinal, sinceramente, vejo muito mais males no uso sistemático de bebidas alcoólicas do que na maconha.

O fato é simples: Há pessoas com propensão a toda sorte de dependências. Quem tem essa pulsão instalada em si, fará a viagem por qualquer que seja a porta de entrada.

Dizer que a maconha, todavia, leva às outras drogas, é infantilidade. Explico o por quê.

1. A pesquisa foi feita com usuários de drogas. É claro que todo aquele que deseja um alterador de consciência, procura, como noviço, o que há de mais fraco: a maconha.

2. Quem não tem uma pulsão forte na direção da dependência, fica aí; e, em muitos casos, pára logo depois; ou usa de vez em quando...”pra tirar uma onda”.

3. Quem prossegue no uso e parte para outras drogas, em geral o faz por não ter achado a maconha forte o suficiente. Mas como a porta de entrada foi a maconha, ela leva a culpa toda a viagem. Acho injusto.

4. Não se verifica que há uma quantidade enorme de usuários de cocaína, por exemplo, que detestam a maconha, e gostam muito mais de associar seu vício ao álcool. O fato é que maconha e cocaína não combinam. A primeira chama para a quietude e para a meditação (os hippies que o digam), e a outra clama por excitamento e ação. São antagônicas entre si.

5. À semelhança da relação com o álcool, há pessoas que carregam propensão para desenvolver dependência por quase qualquer coisa. Nesse caso, trata-se de um mal congênito, uma inclinação orgânica semelhante a muitas outras...como o diabetis, por exemplo. Há organismos que são incompatíveis com certas químicas. E sábio é todo aquele que ou não procura saber quais são tais incompatibilidades, ou, em sabendo, “cai fora” o quanto antes.
6. No aconselhamento cristão não há nenhum outro poder mais forte que o da consciência e da sabedoria. Nesse caso, por experiência própria, e com centenas e centenas de outros casos vistos e assistidos, alguns de importância visceral para mim, aprendi que a Lei não ajuda em nada. Ao contrário, a Lei aumenta o desejo da experiência como transgressão. E se houver culpa, a Lei aprofunda o desejo como compulsão. Daí, a melhor coisa seja ajudar a pessoa a enxerga tudo como uma questão de saúde; e nunca como uma questão de caráter ou de correção moral. Quem transforma a maconha em erva do diabo, está dando ao diabo um poder que a planta, em si, nunca deu a ele...nem Deus, o Criador, a fez para o diabo usar contra os homens.

7. Como você já deve ter percebido, meus aconselhamentos contemplam o mundo real, não o mundo ideal, visto que este não está disponível a nenhum de nós. Fomos expulsos do Jardim, e vivemos na terra...e com as maldições de nossas doenças e escolhas equivocadas. Ora, sendo assim, meu conselho para os pais que me reportam que seus filhos estão usando maconha, são quase sempre parecidos com aquele que dei à mãe cujo filho estava tendo uma “plantinha” em casa (Quem lê entenderá o “espírito da coisa”).

8. Tenho amigos de adolescência com quem convivo até hoje. Alguns ainda hoje me dizem que fumam um baseado na hora de dormir, pra relaxar. Outros não usam nada. O fato é que se você não souber quem usa e quem não usa, não dá pra saber quem é quem apenas pelas performances funcionais na sociedade. Há aqueles que nunca usaram nada, mas estão tão lerdos que parece que foram eles que usaram a erva nos últimos 35 anos. E há aqueles que nunca pararam de usar, e não parece que usam. São pais responsáveis, trabalhadores, bem casados, felizes, e muito amigos dos filhos. Enfim...não dá pra criar uma “lei do carma” baseado no uso da maconha.
9. De fato, ninguém precisa de nada disso, assim como também ninguém precisa de uma "boneca de plásticco" para ter prazer, nem de vibradores, nem de "gravata no pescoço". Mas eu jamais fui a favor das leis que estão aí. Para mim elas apenas aumentam o problema, por todos os ângulos em que se estude a questão: da criação de um senso de transgressão utilíssimo para o desenvolvimento de desejos compulsivos, passando pelo aparato do tráfico e das organizações para-militares; e caindo no veio mor do sistema, gerando toda sorte de corrupções: tanto da polícia quanto das demais autoridades...chegando ao Congresso e ao Judiciário. Um dia esse país entenderá o que estou dizendo, e espero que já não seja tarde demais...

10. Sem falar na grande hipocrisia. Conheço um monte de gente da mídia, do mundo político e das autoridades de repressão, que usam maconha todos os dias. As pessoas me contam as coisas. Eu não preciso perguntar. Parece que sou um confessionário ambulante. Fico com raiva quando vejo uma dessas figuras públicas, ante a tragédia de alguém relacionado às drogas, expressarem comentários legalistas, fazendo afirmações criminalizadoras, e que em seus lábios são completamente farisaicas.

11. A “igreja” está cheia de meninos, meninas, homens e mulheres, que fumam maconha. Recebo aqui, por e-mail, um monte de confissões...até de pastores...até de líderes de clinicas para dependentes químicos...que largaram a cocaína, ajudam a outros, mas não se sentem mal fumando maconha, e, escondido o fazem, mas ficam se sentindo um lixo. Ajudo esses irmão a se acalmarem e a tratarem a coisa como uma questão de ética de saúde humana...nada além disso.

12. Enquanto parar de fumar maconha, ou cheirar pó, ou qualquer outra coisa for “sinal de conversão”, mais gente haverá se pondo no inferno pelo fato de já ter crido, mas ainda não saber como lidar com a questão.
13. E como no meio evangélico essa coisa toda é do diabo, não é de admirar que tantos filhos de cristão acabem se viciando a fim de enfrentar a outra droga: aquela que entorpece os pais e os torna seres fanáticos, ignorantes, obscurantistas e idiotados: a religião!

14. Ora, quando um adolescente me procura dizendo que está fumando, eu faço tudo para ele tomar consciência de que aquilo pode fazer mal; e, dependendo do organismo e da condição psicológica, pode ter conseqüências piores. Mas se vejo que o moço não está com a consciência de parar, prefiro ajudá-lo a ter consciência para usar. É a tal da sabedoria que ensina a escolher um mal menor. E o melhor disso é que sempre funciona, e depois de um tempo a obra é completa, e acontece sem neurose...

15. Todavia, é preciso, em nome da verdade, acabar com as ilusões. Assim como aprender a engatinhar e andar pode me por de pé, não significa que andarei até a beira do precipício para de lá me atirar. Nem todo mundo que anda vai ao telhado de um prédio e pula. Mas todos os que pulam têm que andar até lá.
A melhor coisa que se faz com a maconha é desdemonizá-la, pois demonizada ela é muito mais poderosa! E aqui convido todos os pastores e líderes a fazerem uma experiência comigo:

1. Tire a gravidade do inferno de sobre o tema.

2. Mostre-se honesta e sinceramente aberto para ouvir, e não jogar o cara no purgatório das disciplinas.

3. Trate a questão como se fosse sexo. Quando a questão é sexual, e os envolvidos são jovens, eu os aconselho a não saírem transando por aí—aliás, não importa a idade! Mas se sei que vão transar, e sei que não há nada a fazer, honestamente eu faço uma doação de camisinhas.

Afinal, com quem é meu compromisso? Com minha “moral”, ou com o bem da pessoa? Se for com minha moral, então eu tenho que agir como o faz a igreja católica: não dar e não deixar nem mesmo que se use a camisinha. Desse modo, pela moral, se não for o ideal, que seja o pior. Mas quando o compromisso da gente está com as pessoas, então, tem-se que escolher um mal menor; afinal, essa pode não ser uma decisão moral, mas com certeza é ética.

Gosto muito, muito mesmo, do trabalho do AA e do NA. São maravilhosos.

Eu creio que na hora em que tirarmos a platéia para esse espetáculo, as coisas se acalmarão bastante. Quem busca algo nas drogas, busca ou foge de algo em si mesmo.
Nesse caso, ou tal pessoa é alcançada antes pela Graça (e esse é departamento ao qual não temos acesso), ou tem-se que ter amor, sabedoria, calma, leveza, e muita paciência para tratar da questão sem torná-la maior ou pior.

Por último, concordo com você: o assunto tem que ser entendido e discutido, pois a verdade sobre as coisas também liberta a consciência da ignorância. Acedem-se as luzes...fogem os vampiros! Receba meu carinho, Caio .

site: http://www.caiofabio.net

Um comentário:

Anônimo disse...

A favor da regulamentação/legalização. Porque, na verdade, hoje vivemos num momento de liberalização onde o traficante tem o monopólio da Cannabis. E a Cannabis é a droga mais usada no País. Tirar este monopólio das mãos do traficante, que não tem o mínimo escrúpulo na hora de aliciar jovens a experimentarem crack, seria um golpe financeiro na rede do tráfico. Alguns plantariam e lojas venderiam. Caso o preço fosse semelhante ao cigarro comum, seria cerca de 20 vezes mais barato do que é cobrado hoje. Continuaria havendo contrabando? Sim, mas o mercado paralelo seria semelhante ao mercado paralelo de cigarros e de CDs piratas, onde não há toda a violência do narcotráfico. Tal mercado paralelo também poderia ser efetivamente desestimulado pela política de impostos a ser adotada pelo governo. Também a maconha vendida seria de maior qualidade. Na holanda, para ilustrar, houve uma diminuição pela metade do consumo de heroína entre os cidadãos do país. O único problema que ela enfrentou foi que, por assumir uma posição de vanguarda e destaque internacional, gerou o turismo internacional para consumo de drogas, o que fez com que o tráfico não fosse substancialmente eliminado. Mas isto, que fique claro, está sendo corrigido. Estão aparando as arestas da lei, por assim dizer. Já em Portugal e na Espanha, a regulamentação foi um sucesso total. Lá eles não tem este problema do turismo de usuários de drogas. Enfim, a questão é que deve haver uma legislação mais inteligente que a atual, adaptada à nossa realidade, e que seja depressora do poder financeiro do tráfico.